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Poesias e Outras Coisas
Porque eu queria que a vida fosse suficiente
| Música de uma nota só | 14:16 |
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Enquanto lavava o cabelo, ouviu um estalo e sentiu a água esfriar. Estremeceu de imediato e não pode conter mais um xingamento. Sabia que este dia não seria comum.
Aguardou com impaciência, batendo um pé no chão enquanto o outro lhe servia de apoio, olhava para o relógio a cada meio minuto com a sensação de que as horas passavam cada vez mais rápido e a raiva gradativamente aumentava. Lá vem o ônibus, deve estar lotado pelo tempo que demorou.
Dito e feito! Praguejou novamente. Aquele cheiro de suor misturado a Kriskas e Timeless eram nauseantes. Janelas fechadas por causa da fina garoa e vidros embaçados por mais de quarenta pares de narinas que respiram. Observou alguns jovens que fingiam dormir sentados nos assentos reservados. Lamentou a falta de educação deles. Pensou em voltar para casa, para cama, para a vida dela. Desistiu. Lembrou que apesar dos pesares, precisava ganhar muito dinheiro para a empresa e alguns trocados para si.
Ainda no trajeto percebeu que havia esquecido o guarda chuva. Teria problemas com isso. Esta semana já tinha tomado um banho de chuva, mas agora já não era mais tão empolgante como quando era criança, quando pedia para a mamãe que a deixasse sair e se divertir na rua com a molecada. Lembrou do cheiro doce que sua mãe tinha, como era reconfortante voltar para casa e vê-la feliz preparando o jantar. Isso já faz muito tempo, tanto que nem conseguia se lembrar ao certo do rosto de sua mãe, mas o cheiro, era inesquecível.
O pensamento vagou então para a noite anterior. Com uma cara meio esquisita, como se estivesse tentando reviver alguma sensação boa, tentou fixar o que tivera acontecido, mas não se lembrava ao certo se tinha mesmo se divertido. Ficou bêbada demais para medir o quão bom é sair e beber.
Procurou a carteira na bolsa para pagar a passagem. Mas que inferno! Distraída, a roubaram. Agora é contar com a compreensão do cobrador e pedir a Deus que ele seja discreto ao autorizá-la a descer pela porta da frente. Com cara de quem pensa "conheço essa história" o cobrador acenou ao motorista dando ordem para que abrisse a porta. Desceu do ônibus meio sem graça, agradecendo cabisbaixa e enrubescida.
Sentiu um tranco quando o salto do sapato se partiu. Outro xingamento e vontade de chorar vieram com força em sua face contraída. Claudicante chegou no trabalho e ao ouvir a piadinha "boa tarde" olhou bem nos olhos do chefe, levantou graciosamente o dedo médio e em meia volta, saiu batendo atrás de si a porta, com força. Deixou ali tudo que a fez xingar nesta manhã de chuva fina. Andou descalço e sorrindo, orgulhosa por tanta coragem!
| É de mim, sim! | 19:21 |
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De novo, passei por mim e nem me percebi
Dei-me conta de que tava sumindo
Fugindo assim de mim mesma
Passando de cá pra acolá sem me tocar
Acabei por fim dormindo
Acordei noutro mundo
Num plano surreal de verdades inventadas
Sobre mim, nada descobri
Passei sem sorrir e sem chorar
Talvez nem nada tenha sentido de verdade
Mas cheguei aqui e devo continuar
| Definição | 20:15 |
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| Fogo e Ar | 14:20 |
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Devaneios
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Ar que propaga o fogo de mim
E fogo que afasta o ar de ti
Tá difícil assim de se consumir
Ou se consumar ou até misturar
| 23:56 | |
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E vinha bem firrme
Era tudo verdade
Nada foi inventado
No dia escuro
Daquela noite curta
Olhei pro céu
E vi o mar se abrir
Profundo
Netuno
Atrás de mim
Lá vinham elas
Cantarolando, dançando
Levando o que fui
Pra eu me tornar
O que sou
Sorrio em desvario
De tanto vazio
Fiz deste mar
O meu rio.
| Sou-humano | 23:49 |
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Parece até que era de vidro
Frágil, concordo. Resistente...
Resiliente, não!
Quebrou e virou mil pedaços
Juntos ou amontoados
Viraram um eu estranho
Alocados, cada um em seu espaço
Aqui ou ali?
Onde é que me encaixo?
Dizia pra si, coitado do pedaço...
É só um fragmento
Fica sossegado
No total, no geral, no encontrado
E tudo igual, tudo adestrado.
| Teatral | 23:01 |
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É assim que se forma um espetáculo:
Unem-se os artistas, vestidos, ensaiados
despidos até, mas mascarados!
Abrem-se as cortinas, a vida exposta pela similitude
Carnaval, diversão, muito riso, descontração!
É comédia? É tragédia? Traz-me mais um copo cheio
hoje quero embriagar-me, deixar ser o que sou
Mas és artista não vê? Tua máscara não podes deixar
Mostre apenas o que querem eles ver, a tragédia, a comédia
que há de mal nisso? Quem se importa com a vida real?
O que de real existe, senão a própria encenação
que nos fascina, nos faz rir e chorar
a depararmos com nossas próprias vidas!
Fecham-se as cortinas, artistas vestidos, ensaiados
despidos até, mas desmacarados...
| Nascer, crescer...viver? | 22:48 |
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A cada dia vivido, a certeza!
O fim se aproxima
Seja lá o que for, se finda...
Seja lá como for, eu vou...
Olhando a fresta da alma
O medo
Sentindo o gosto aguado
A memória
Seja para o bem, estou...
Seja para o mal, eu sou...
A fogueira
Acaba a lenha, sem fogo
A vida
Sem sopro, sem ar, sem gozo.
| A Sexta | 19:57 |
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a ópio, a vazio, solidão
A Sexta aspira
ser novo, ser cheio, emoção
A Sexta calada
sem nada, palavras, refrão
A Sexta-feira
uma trilha, um risco, borrão
A Sexta cheia
de ópio, de nada, solidão.
| É só | 06:50 |
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Já fui do tipo que precisava ser conquistada
Hoje prefiro pular esta parte
Assim evito a expectativa e com ela a decepção
E só
Porque de fato, só eu não estou
E se nada espero e recebo algo
Agradeço! Obrigada!
Se não, é só
E se você espera e não recebe
Coitado, se desespera e se entrega
Amaldiçoa! Desgraça!
Continua assim, só
Para que sintam dó
A complacência alheia é esperada
Projeta no outro a dor, a raiva
Que adianta? Ainda é só.

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