Poesias e Outras Coisas

Porque eu queria que a vida fosse suficiente

Música de uma nota só 14:16

Acordou ainda atordoada procurando o celular que a despertava em algum lugar próximo à cama. Mais dez minutos, queria ela. Sentindo o gosto amargo da ressaca na língua, se arrependia agora de ter bebido tanta vodka. Correu para o banheiro e debaixo do chuveiro tentava pensar no que iria falar para o chefe. Alguma indisposição, coisas de mulher, sei lá. Acordou durante o banho e agradeceu a não se sabe exatamente quem, por ter uniformes para trabalhar. Aquela camisa bege com o bordado verde musgo, combinando com a saia a salvaria de ter que escolher algo para usar. Isso lhe tomaria mais tempo e assim, mais atrasada ficaria. Praguejou por saber que a esta hora, o ônibus que costumava pegar já teria passado e com certeza agora, estaria o trânsito mais congestionado e o ônibus mais lotado.
Enquanto lavava o cabelo, ouviu um estalo e sentiu a água esfriar. Estremeceu de imediato e não pode conter mais um xingamento. Sabia que este dia não seria comum.
Aguardou com impaciência, batendo um pé no chão enquanto o outro lhe servia de apoio, olhava para o relógio a cada meio minuto com a sensação de que as horas passavam cada vez mais rápido e a raiva gradativamente aumentava. Lá vem o ônibus, deve estar lotado pelo tempo que demorou.
Dito e feito! Praguejou novamente. Aquele cheiro de suor misturado a Kriskas e Timeless eram nauseantes. Janelas fechadas por causa da fina garoa e vidros embaçados por mais de quarenta pares de narinas que respiram.   Observou alguns jovens que fingiam dormir sentados nos assentos reservados. Lamentou a falta de educação deles. Pensou em voltar para casa, para cama, para a vida dela. Desistiu. Lembrou que apesar dos pesares, precisava ganhar muito dinheiro para a empresa e alguns trocados para si. 
Ainda no trajeto percebeu que havia esquecido o guarda chuva. Teria problemas com isso. Esta semana já tinha tomado um banho de chuva, mas agora já não era mais tão empolgante como quando era criança, quando pedia para a mamãe que a deixasse sair e se divertir na rua com a molecada. Lembrou do cheiro doce que sua mãe tinha, como era reconfortante voltar para casa e vê-la feliz preparando o jantar. Isso já faz muito tempo, tanto que nem conseguia se lembrar ao certo do rosto de sua mãe, mas o cheiro, era inesquecível.
O pensamento vagou então para a noite anterior. Com uma cara meio esquisita, como se estivesse tentando reviver alguma sensação boa, tentou fixar o que tivera acontecido, mas não se lembrava ao certo se tinha mesmo se divertido. Ficou bêbada demais para medir o quão bom é sair e beber.
Procurou a carteira na bolsa para pagar a passagem. Mas que inferno! Distraída, a roubaram. Agora é contar com a compreensão do cobrador e pedir a Deus que ele seja discreto ao autorizá-la a descer pela porta da frente. Com cara de quem pensa "conheço essa história" o cobrador acenou ao motorista dando ordem para que abrisse a porta. Desceu do ônibus meio sem graça, agradecendo cabisbaixa e enrubescida. 
Sentiu um tranco quando o salto do sapato se partiu. Outro xingamento e vontade de chorar vieram com força em sua face contraída. Claudicante chegou no trabalho e ao ouvir a piadinha "boa tarde" olhou bem nos olhos do chefe, levantou graciosamente o dedo médio e em meia volta, saiu batendo atrás de si a porta, com força. Deixou ali tudo que a fez xingar nesta manhã de chuva fina. Andou descalço e sorrindo, orgulhosa por tanta coragem!

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