Poesias e Outras Coisas

Porque eu queria que a vida fosse suficiente

Anonimato 05:49

Eram sete horas da manhã. Estava atrasado e corria feito louco para não perder o trem. Enquanto corria, lembrava-se do rosto triste de seu filho mais velho. Poucas vezes tinha prestado atenção nas feições dos filhos, mas na noite anterior foi tão evidente o olhar, a melancolia, fazendo com que se sentisse mais penalizado ainda. Pensava consigo mesmo, que não tinha o que fazer, tentou, economizou, fez horas extras, mas não teve meios de comprar o presente escolhido pelo filho, pelo oitavo ano de que tinha memória. Comprava o que dava, quando dava. Queria progredir, esquecer seu passado, viver bem com sua família que tanto já tinha sofrido. Entre um pensamento e outro, um empurrão, uma pisada no pé e um pedido rápido de desculpas. Estava já dentro do trem quando lembrou que tinha esquecido a marmita. Com certeza levaria uma bronca da mulher que sempre quando ele esquecia o almoço em casa, lhe acusava de não ter consideração com o trabalho que ela tivera em preparar-lhe a refeição. Não era falta de consideração, ele simplesmente esquecia, às vezes.
Chegando ao trabalho, trabalhava. Era seu ofício, era pago pra isso. Enquanto os colegas falavam do jogo e até na novela, seu pensamento andava solto em dias melhores. Pensava em comprar uma casa mais confortável, em um bairro melhor, próximo de boas escolas, mais perto do trabalho. Tanto esforço se traduzia na vontade de quem pagou um preço alto demais por saber de menos. A pouca experiência na vida, a ilusão de dinheiro fácil e rápido, consumiram longos seis anos de sua vida, quando ao ser preso por roubo acabou também sendo acusado de assassinato. Mesmo não tendo cometido o segundo crime, todas as provas denunciavam contra ele. Culpado. Foi o veredicto. Pagou a sentença. Cumpriu seu dever com a sociedade e agora achava que estava livre. Na verdade, a prisão foi maior ainda quando saiu. Aprisionado por seu passado, pela falta de confiança, pela falta de respeito e pelo medo.
Finalmente, mais um dia de trabalho se cumpriu e satisfeito pelo cumprimento de seu ofício, dirigiu-se ao ponto de ônibus, a fim de chegar em casa, descansar, restaurar-se da fadiga e do cansaço. Enquanto caminhava, pensava no futuro. O quão melhor seria a vida dos seus filhos, a vida que ele não pode ter. Nem à praia tivera oportunidade de levá-los. Por enquanto! Chegaria este dia. Com certeza chegaria.
Com o pensamento tão longe, nem pode notar a correria e a gritaria. Pessoas se amontoavam, corriam, procuravam um lugar pra se esconder. Um homem passa correndo e quase provoca uma queda no sisudo trabalhador. Não teve reação, apenas olhou atordoado e percebeu que aquele carregava uma arma, estava sujo de sangue e rapidamente se levantou, tentou correr, mas já era tarde. Um ensurdecedor estrondo. O homem cai. Mais estrondo, outro e outros sucessivamente.
“Dois homens são mortos em confronto com a polícia.” Esta é a manchete do jornal. Mas o sisudo, o trabalhador não estava em confronto com a polícia, confrontava apenas a sua vida, seu pensamento, sua história que para ele estava só começando. Foi interrompido. Subtraíram a possibilidade de oferecer a seus filhos o que ele pretendia. Entrou para as estatísticas apenas.
O policial que o matara disse em voz baixa a um amigo:
- Como poderia saber que era um trabalhador? Nem carregava uma marmita...

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