Poesias e Outras Coisas

Porque eu queria que a vida fosse suficiente

E ele voltou 16:49

Depois de dois mil anos, estava na hora de cumprir a promessa. E lá veio ele, Yeshua, Jeová, Jesus, Leão da Tribo de Judá, o Cordeiro Prometido.
Antes de vir, fez, é claro, uma programação, como, quando e onde chegaria. A tarefa foi mais difícil do que pudera imaginar, mas tinha que cumprir. Seu pai, o Todo Poderoso já o cobrara várias vezes, dizia que se ele não aparecesse logo na Terra, todos iriam queimar suas bíblias e novos testamentos. Estava de fato em vias de acontecer isso mesmo. Pois bem, voltando à preparação de sua vinda.
Ele então encomendou alguns vídeos, algumas fotos, bíblias diversas, tudo para entender como é que os homens contemporâneos o imaginavam. Ficou meio desapontado por que gostava de sua pele escura e cabelo crespo, enfim, acabou considerando que a imagem e semelhança de seu pai eram bem mais ecléticas do que supunha.

Desde a sua redenção ao reino dos céus, não pensava mais na humanidade, já tinha feito o que tivera que fazer e aguardava para o grand finale, despreocupadamente. Afinal, só se é humilhado, execrado, espezinhado e crucificado apenas uma vez, e essa experiência já tivera passado. Então, agora seria só chegar e levar os escolhidos. Sem alarde, sem estrelas cadentes, sem magos quase delatando seu nascimento, sem milagres, sem posicionamento políticos (afinal isso seria demasiado impossível, visto o que as demarcações geográficas provocaram), sem ressucitamentos, nada disso. Era chegar, estrondar tudo, do oriente ao ocidente, apontar quem vai quem fica, remir e voltar. Pronto. Cumpriram-se as escrituras.

Assim, lá veio ele. Pobre Jesus. Não contava ele que muito tinha mudado nestes dois mil anos. Logo que ele estrondou o céu no oriente, pensaram que se tratava de mais um tsunami. Correram, soaram os alarmes emergenciais, quando avistou a terra, já não tinha mais ninguém. Chegou até a pensar que ali não tinha ninguém para ser salvo. Olhou seus mapas, as estatísticas e se convenceu que não tinha mesmo o que salvar ali, porque ali não tinha cristãos, eram todos budistas, xintoístas, mulçumanos e outras religiões não cristãs. Acreditou então que os cristãos reconhecendo o sinal foram para outras partes da Terra juntar-se aos demais seguidores dele. Continuou o resgate.

Resolveu descer à África. Ficou assustado com o que viu. Pessoas que nem pareciam ter vida. Somente ossos e pele. No rosto, a marca do sofrimento da dor, no olhar o pedido de misericórdia. As pessoas lhe estendiam a mão, queriam comida, água, remédios. Crianças, mulheres, homens, jovens, velhos. Uma situação horrível. Ele perguntou a seu pai sobre este povo, se estavam eles esquecidos. Se já tinham recebido a negação de salvação. Todos eram pecadores, mas e o perdão? Não teve resposta, sabia que era sua tarefa. Não podia operar milagres, não podia encher os rios de água e peixe, não podia dar pão aquelas pessoas, não podia se engajar politicamente, o que fazer? Resolveu deixá-los a sua própria sorte, pior não poderia ficar. Se pelo menos seus governantes se salvassem, estariam salvos de seus governantes, mas estes ficariam aqui para que queimassem no fogo ardente do inferno. Não tinha o que fazer. Continuou sua busca por cristãos.

Chegou à Europa. Ah! Lá sim encontrou muitos cristãos. Encontrou uma magnífica igreja, imponente. Pensou que deveria ter sido esta construída por Paulo. Tentou entrar. Não conseguiu. Foi barrado pelos guardas da Basílica de São Pedro, que só permitiam a entrada de personalidades, gente importante, ou então com visita marcada. Tentou tratar as objeções alegando ser ele o príncipe dos príncipes, que viera para remir os escolhidos. Riram, caçoaram de Yeshua, chamaram-no de mais um louco. Tentou ainda alertá-los sobre o sinal do oriente que se mostra no ocidente. Riram mais ainda. “É um doido que conhece as sagradas escrituras”. “Deve ter enlouquecido de tanto ler”. Percebendo que ali não havia bons cristãos, senão apenas soldados de uma entidade que desconhecia, resolveu continuar sua busca pelos escolhidos.

Chegando então na América, foi recebido com grande expectativa. Torpedos, tanques, f-16 e muita artilharia que desconhecia. Não entendeu nada. Os americanos acreditavam se tratar de uma invasão espacial. O estrondo do oriente que se mostrou no ocidente. Tentariam impedir que aquele alien invadisse a Terra a qualquer custo. Passaram mesmo a acreditar em Steven Spielberg. Yeshua tentou conversar, negociar a retirada dos escolhidos, eles precisavam se juntar ao galardão dos céus. “Não, não. Este ET quer nos levar para experimentos extraterrestres. Seremos cobaias humanas, injetarão chips eletromagnéticos em nós e seremos escravos intergalácticos.” Não teve conversa. Foi preso por invasão do espaço aéreo americano e levado para a NASA, queriam estudar a composição genética do homem que veio do céu, o que o diferenciava dos humanos, conjecturavam inúmeras idéias de como ele seria útil para os avanços científicos, biológicos e medicinais. No terceiro dia em que estava preso, sumiu. Desapareceu. Deixou os homens a sua própria sorte. Não levou ninguém consigo. Apenas a promessa de nunca mais voltar a este lugar. Por nada!

1 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom este texto. Creio que a reflexão è o caminho e, tem muita reflexão deixada no caminho. Ou as pessoas mudam ou sucumbem.
Ao blogue meus parabéns inclusive pelas indicações de outros blogues progressistas e de uma tendência política inequivoca de luta pelo Brasil.